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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Soltem-se as feras

A entrevista da Antena 1 parece não ter corrido bem a Sócrates. Nela exibiu o animal feroz que diz ser, ou dito por mim: um ser arrogante, provocador, controlador; que procura amaciar agora, como tem sido bem patente nas últimas aparições nas televisões. A forma não batia certo e não terá passado despercebido aos seus assessores de imagem que trataram de impedir a reprodução em vídeo da entrevista. Assim, fica apenas o registo em áudio, as partes mais elucidativas, tratadas pelo 31 da Armada, para ver como Sócrates perde o verniz com facilidade. Basta chamar temas mais incómodos.




quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Com um sofisma Sócrates conseguiu safar-se ...mas sem conseguir enganar quem pretenderia

Sócrates quis encostar o Louçã à parede com um aspecto do programa do Bloco porventura menos conhecido do grande público. Mas começou com uma mentira; a de que o Bloco a pretendia esconder quando é público que o programa foi discutido na internet. A questão prende-se com o fim das deduções específicas no IRS de despesas da saúde e da educação. Sócrates insistiu neste tema até à exaustão, pensando ter encontrado ali o ponto susceptível de causar um grande embaraço, como efectivamente pareceria ser (e poderá vir a ser – se não for devidamente explicado) por, ao retirar a possibilidade dessas deduções, sem mais, na prática, isso provocar um aumento da carga fiscal, mais em especial à classe média, aquela que mais usa estes mecanismos.

Com isto Sócrates quis desviar o debate e remeter Louçã para uma posição defensiva e assim ganhar tempo e não ser confrontado com as suas políticas em áreas em que manifestamente iria ser massacrado por Louçã. Digamos que esta táctica surtiu efeito. Não apenas obrigou Louçã a desgastar-se em explicações com este tema – a que não poderia fugir porque uma proposta desta natureza carecia de uma boa explicação, pelas suas implicações no bolso dos portugueses.

Claro que Sócrates agiu com sofisma ao não acrescentar a contrapartida a essa medida: a defesa de um modelo alternativo assente na gratuitidade do ensino e da saúde; e sendo gratuito o acesso e as despesas com a saúde e o ensino não faz sentido fazer deduções de despesas que não existiriam. Louçã teve enfim de explicar, por duas vezes, que o Bloco defende um processo fiscal simplificado, rigoroso e transparente que melhor proteja dos abusos e fraudes (o custo das deduções fiscais tem um impacto na economia do Estado de mil milhões de euros) e um modelo de reutilização dos livros escolares, cujo significado se traduziria numa poupança significativa do Estado.

Depois ficaram coisas para o anedotário de Sócrates: por um lado não gosta que Louçã afirme que ele vendeu – fica indignado! Que não foi ele foi o Governo. Mas logo a seguir diz que eu fiz isto e fiz aquilo. Depois diz que Louçã teve uma descaída ideológica quando foi Sócrates que andou pelo PSD. Sobre as nacionalizações outras mentiras: O Bloco propõe a nacionalização da energia e não dos bancos, seguros, etc.

Acabou por faltar tempo para confrontar Sócrates com os erros e as opções políticas do Governo apesar disso ainda teve que ouvir falar sobre alguns negócios ruinosos e alguns obscuros. A entrega sem concurso do terminal de Alcântara por longos anos à Mota Engil, a entrega ao desbarato da Galp a Amorim e a José Eduardo dos Santos, a adjudicação de uma auto-estrada por um preço que entretanto terá sido acrescentado em 500 milhões de euros (um assunto que terá de ser clarificado dado que Sócrates o nega). E ainda sobre a encenação de inauguração de um Hospital. Ou o código de trabalho que agora fez aprovar contra aquilo que defendia quando estava na oposição.

Por todas estas razões Sócrates acabou por safar-se. Mas creio que apesar disso não ganhou nada com este debate pelo contrário. Neste debate ficou-se a saber que também é um malabarista. Para além das outras características que conhecemos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Um debate esclarecedor

Ontem vi um debate esclarecedor: De um lado a esquerda de outro a direita. Sobre a economia, a segurança social, a saúde, a educação ficaram bem vincadas as diferenças. De um lado um Estado a não descuidar as pessoas. Do outro deixar tudo ao mercado. De um lado uma visão humanista, democrata, sobre as liberdades individuais e os direitos colectivos. Do outro uma visão condicionada e retrógada. De um lado uma pessoa segura, com propostas, ideias, uma visão clara sobre o país. Do outro, hesitações, indefinições, desconhecimento do seu próprio programa eleitoral. Em suma: um debate em que ficou claro ser Louçã o político mais bem preparado e mais competente.

Mas isto foi o que eu vi. Nos comentários que se seguiram nas televisões, SIC-Notícias, TVI24 e RTPN, todos os comentadores viram o contrário. Não podendo evitar a excelência da prestação de Louçã e incapazes de o contraditar, falam em propostas inviáveis sem contudo concretizarem esta afirmação. E elogiam Manuela Ferreira Leite apenas porque as perspectivas à partida eram baixas. Não há pachorra! A propósito não há comentadores de esquerda nas televisões? No fim de debate fica a interrogação: quem era o candidato a primeiro-ministro?

sábado, 5 de setembro de 2009

Que pobreza franciscana de debate.

Jerónimo de Sousa parece ser boa pessoa. Bem-intencionada. Alguém verdadeiramente preocupado com o bem-estar do povo. Um homem com uma grande consciência social. Um político com pensamentos bem arrumados. As prioridades políticas bem definidas. Jerónimo de Sousa é seguramente um Senhor. Mas por favor, não é um líder político. Muito menos para o mais alto cargo de um partido como o PCP. Jerónimo de Sousa, vê-se, é uma pessoa inteligente, conhece bem os problemas do país, desenrasca-se bem na disputa política, no debate. Mas faltam-lhe outros atributos: falta-lhe rasgo, nervo, voz de comando, raciocínios na ponta da língua, competências técnicas e políticas para a alta política e debates mais intensos. Jerónimo de Sousa mostrou muitas fragilidades no debate de hoje com Sócrates. Com Jerónimo de Sousa na liderança do PCP, não vai bastar a sua simpatia (quando a disputar o mesmo terreno político está um político com as capacidade de Louçã), para aguentar o seu eleitorado, estou em crer. Jerónimo esteve apenas bem num único momento; quando fala no país real em oposição ao país pintado a cor-de-rosa de Sócrates. De resto Jerónimo não foi capaz de contraditar Sócrates. Juro que faria melhor.

De Sócrates, pouco a dizer: a pose serena, o tom de voz doce, os esgares de injustiçado e incompreendido, cheira tudo a falso, a fabricado. O seu país não é o dos 2 milhões de pobres, dos 600 mil desempregados, dos baixos salários, da precariedade, dos serviços de protecção social mais débeis, do país com o maior fosso entre ricos e pobres da Europa, das pessoas que vivem em contínuo sobressalto com a edução dos filhos, a saúde dos pais, a casa para pagar, a possibilidade de perder o emprego, a perspectiva de perder os apoios sociais. Um nojo enfim.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Programas eleitorais: o rabo de fora com gato escondido

Há programas eleitorais públicos e há programas eleitorais ocultos. Há programas com imensas páginas e programas que podiam caber numa folha A4. Os programas são o compromisso público com os eleitores. Conhecer as propostas, os projectos e as ideias dos partidos são elementos fundamentais para sabermos o que os partidos pensam para o país. Sobre o progresso, os serviços públicos, o acesso à justiça, a economia solidária, os direitos do trabalho, da saúde e da educação, o emprego digno, a protecção social, as desigualdades sociais, o combate à pobreza, o equilíbrio ecológico. Contudo, não é isso que nos mostram os programas eleitorais. Os verdadeiros programas são programas secretos. São os programas que se revelam depois das eleições.

Dito isto são-me indiferentes os programas públicos do PS e PSD. Nas linhas fundamentais serão parecidos com enfoques diferentes porque a ocasião o dita, sobretudo em campanhas eleitorais. No que me toca conheço suficientemente os seus pensamentos políticos e conhecemos todos, em particular, como são quebrados os compromissos eleitorais quando chegam ao Governo, com as justificações estapafúrdias do costume: as contas públicas são pior do que a imaginavam. A herança política é pesada.

Conhecer o que cada partido pretende é indispensável para os eleitores, mais desinformados, mais incautos, menos atentos. Por isso o que é importante para o esclarecimento são os debates, olhos nos olhos, partido frente a partido, pondo em confronto, projectos, programas, práticas. Sem redes. Sem esquivas. Conduzido por entrevistadores competentes, isentos, acutilantes, provocadores, no bom sentido.

Neste ponto de vista a recusa de Sócrates a debates (e de Manuela Ferreira Leite mesmo que timidamente os aceite), diz muito sobre os programas escondidos desses partidos. Revela o medo de serem confrontados com as suas contradições, as suas mentiras, os interesses ocultos que protegem.

(A acabar este texto ouço que Sócrates acaba por aceitar as entrevistas a dois - caía muito mal a recusa. Uma boa notícia, pois. Assim as coisas poderão ser mais claras e as opções dos eleitores mais esclarecidas.)
 

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