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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Não há mesmo almoços grátis?

No meu almoço de despedida por reforma o Presidente do meu Sindicato andou quase 800 Km (ida e regresso). Todos os meus Chefes (incluindo o da região Norte), em trinta anos de empresa, também estiveram presentes. Contudo com todos eles tive grandes polémicas e com alguns mesmo problemas graves. Com o sindicato cheguei a ser suspenso temporariamente. Com um dos meus chefes levei um dia de castigo. Sem querer ser teimoso em ambos os casos a razão esteve do meu lado. Apesar disso a vida continuou sem eu deixar de dizer, quando entendia ser meu dever dizer, o que tinha para dizer e sem os responsáveis do Sindicato e da Empresa deixarem também de ter as suas próprias posições, quando discordavam das minhas. Será que não há mesmo almoços grátis? Com quem nos respeita não há diferenças ideológicas, por grandes que sejam, onde não caiba o reconhecimento.

A minha Solidariedade com Chora!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Com pessoas integras, sim, há almoços grátis. Solidariedade a Chora

A minha actividade política e partidária, creio já o ter dito aqui, surge ligada a um partido da extrema-esquerda, a OCMLP (Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa), a partir do contacto com o jornal clandestino o Grito do Povo que mãos amigas me fazia chegar, regularmente, à minha caixa do correio.

Mas a minha consciência política começa a ganhar forma antes, a partir dos 14 anos, quando ingresso no trabalho formal, nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, através do meu “chefe”, Manuel Carvalho, militante do PCP, uma excelente pessoa, felizmente ainda entre nós (que sempre encontro no almoço comemorativo do 25 de Abril, precisamente onde tudo começou –no refeitório dos Estaleiros Navais onde decorre a efeméride) ao decidir inscrever-me, pouco tempo depois no sindicato dos electricistas, certamente adivinhando na minha precoce irreverência, uma frescura e uma energia bastante, para dar um enquadramento político a uma rebeldia saudável e pura.

Mas foi com a mudança para a Portugal Telecom em 1970 (na altura CTT – ramo das telecomunicações), um ano ou dois depois, com a convivência de perto com outra pessoa excepcional, das melhores que conheci, uma pessoa inteligente e sensível, um colega de trabalho mais velho do que eu, igualmente militante comunista do PCP, o muito saudoso e querido amigo António Santos, já falecido, que fez despertar em mim, uma consciência política para coisas e situações que não cabiam no imaginário de um jovem, com apenas 16 anos de idade, mas já com uma vivência um pouco incomum.

De Manuel Carvalho e António Santos, apesar de termos seguido, posteriormente, caminhos eu diria paralelos, em termos partidários, guardo ensinamentos e postura de vidas, que me fizeram um homem diferente. Uma abertura e respeito pelas opiniões contrárias, a sensibilidade para as questões sociais, para a justiça social, a igualdade a solidariedade e o reconhecimento devido a quem nos respeita, mesmo quando estamos em campos políticos opostos. Tenho a certeza que nunca chegarei a fazer justiça a esses ensinamentos.

Não foram somente estes meus dois companheiros, naturalmente, a formar a pessoa que hoje sou. Muitos outros ajudaram-me a tornar um homem melhor. (Embora não seja grande coisa, digo eu e dirão outros – mas sei que, apesar de tudo, não sou um mal tipo). Alguns deles partilhando a militância política. Com todos os problemas, erros, sectarismos, oportunismos dos grupos da extrema-esquerda, a militância política e partidária, muito intensa e generosa, a actividade sindical, a ligação ao associativismo, o ser treinador (presidente, massagista, motorista, companheiro, amigo) de Andebol de um grupo de jovens desde os 9/10 anos até aos 17/18 anos, marcaram para sempre uma vida. Sinceramente, e só eu seu o quanto isso é-me doloroso, penso que o meu grande falhanço, foi com os meus filhos. Eles mereciam ter um melhor pai. E nem quero desculpar-me com o divórcio que os apanhou muito novos. (estou a escrever isto e os meus olhos estão em lágrimas – nem sei se deveria estar a dizer estas coisas mais intimas eles que me desculpem.

Para terminar e era sobre isto que verdadeiramente queria falar, tenho o terrível defeito de querer (tentar) explicar (e eu explico-me muito mal) um pouco mais e melhor a minha posição, queria deixar expresso, o quanto me desiludem, magoam os juízos de valor apressados, as opiniões baseadas em preconceitos, a “ideologização” de tudo, por parte de alguns, as exteriorizações de uma suposta superioridade moral.

Bem e agora termino mesmo deixando bem claro a minha solidariedade pessoal a António Chora. Eu percebo e compreendo muito bem que António Chora, a título pessoal, tenha acedido ao convite pessoal e participado num jantar de despedida e de homenagem ao ex-ministro António Pinho. Chora, para mim, nem precisava de se explicar. Chora participou porque é uma pessoa séria, não hipócrita, não quis saber das consequências políticas do seu acto. Bastava-lhe estar de bem com a sua consciência. E se na análise de Chora o ministro fez um bom trabalho e em particular, fez tudo o que estava ao seu alcance para salvar os postos de trabalho da Auto-Europa, ele, a título pessoal, manifestou-lhe o seu agradecimento pelo empenho pessoal. Um gesto bonito!

E sim, há almoços grátis em pessoas integras!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Um passo atrás agora para dois passos à frente a seguir


Os trabalhadores da Auto-Europa decidiram em plenário recusar trabalhar aos sábados, concretamente em seis sábados num ano, pagos como trabalho normal e não como trabalho extraordinário, no caso de um pico de trabalho o justificar, e para os trabalhadores que já tivessem beneficiado de 22 dias sem produção este ano. Em contrapartida não haveria despedimentos dos 250 trabalhadores contratados a prazo durante 2 anos, nem seria necessário fechar um dos turnos ou o recurso a soluções tipo lay-off.

Ao que li o pagamento de seis sábados como trabalho normal e não como extraordinário, grosso modo, significa uma perda por trabalhador de 150 euros num ano. Sinceramente 150 euros nada valem se do outro lado estão garantias importantes e extremamente solidárias como: a) a garantia da permanência de emprego, durante 2 anos, para os 250 trabalhadores contratados a prazo b)a garantia de continuação dos turnos, com todas as consequências, em termos salariais e como garantia do posto de trabalho c) o não entrar em conflitos perigosos em tempos de refluxo do movimento dos trabalhadores.

Não será o melhor acordo, certamente. Haverá aproveitamentos da conjuntura para retirar regalias ou suspender direitos. Mas é um acordo bom. Especialmente porque salvaguarda princípios de solidariedade com trabalhadores precários, não cria dificuldades acrescidas à economia local, empresas e trabalhadores, que dependem da Auto-Europa.

É verdade que os trabalhadores da Auto-Europa, de alguns anos para cá, têm perdido algumas coisas, mas também parece ser verdade que em matérias de direitos, regalias, condições de trabalho, remunerações se encontram bem à frente de outros trabalhadores da mesma área de actividade. E tal deve-se em muito, não apenas à capacidade reivindicativa dos trabalhadores mas à capacidade, sagacidade, inteligência da Comissão de Trabalhadores e em especial do seu coordenador, António Chora, agora, mais do que nunca, atacado de forma infame por sectores ligados ao PCP. É olhar para alguns blogues e especialmente para as paletes de comentários injuriosos espalhados pela blogosfera.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A díficil decisão dos trabalhadores da Auto-Europa

Não é fácil, nestes tempos, aos trabalhadores tomarem decisões, sobre a diminuição de direitos ou regalias, se confrontados com ameaças de despedimentos ou o fecho da empresa, como forma de sobreviver à crise instalada. Não é fácil sendo verdadeiras ou falsas as razões. A crise não é uma invenção. A dificuldade de algumas empresas é efectiva. Mas também outras, a pretexto da crise, despudorada e mentirosamente, servem-se da situação, para fazer chantagem e atacar os direitos sociais.

A mim não me custa nada aceitar a suspensão de direitos ou mesmo a perda de benefícios, se o objectivo é salvar postos de trabalho, de todos ou de alguém em particular, sendo reais as dificuldades, mesmo considerando que as empresas teriam o dever moral de usarem as “reservas” dos tempos de lucros, para enfrentar os novos problemas, antes de fazer recair sobre os mesmos, os custos todos ou maiores, das novas contrariedades.

Tenho de António Chora, coordenador da Comissão de Trabalhadores da Auto-Europa, a imagem de uma pessoa séria, verdadeiramente empenhado em defender os interesses dos trabalhadores, mas também a de um hábil negociador. Sabendo onde e como avançar, recuar ou ceder. O pré-acordo entre a Comissão de Trabalhadores e a Admnistração da Auto-Europa, recusado maioritariamente em assembleia geral dos trabalhadores, ao que julgo saber, implicava uma solução de consenso: os trabalhadores aceitariam trabalhar metade dos sábados (em altura de picos usando os dias de saldo existentes) sem direitos a compensações remuneratórias extraordinárias (a empresa queria todos os sábados) e a empresa comprometia-se a não despedir trabalhadores efectivos e contratados e a readmitir os trabalhadores que foram despedidos e que tinham sido contratados a termo.

A mim, parecia-me uma proposta realista, sabendo-se que a crise no sector automóvel é concreta –vende-se menos, mesmo que a Auto-Europa, seja a empresa onde menos se fez sentir a quebra. Mas como disse, António Chora, os resultados dos trabalhadores são para respeitar. Contudo e na linha do que disse atrás, Chora fez o que eu faria: em primeiro lugar preservar os postos de trabalho e garantir readmissões de trabalhadores despedidos, e para isso aceitar a diminuição temporal de direitos de forma equilibrada. A maioria dos trabalhadores, 51% não aceitou esta proposta. Espero apenas que não sejam irredútiveis. Recuar não é resignação ou derrota; é o resultado de uma avaliação dos perdas ou ganhos de uma posição conjuntural. O que importa salientar é que a decisão foi uma decisão livre e ponderada dos trabalhadores. Espero que tenha sido a melhor, para eles e para todos.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Os abutres nunca estão saciados. Nunca.

Estava para escrever sobre isto. Reparo entretanto que o meu caro amigo e camarada do Ribeiro da Fonte diz bem melhor do que eu o que eu poderia vir a dizer. Recomendo pois a sua leitura.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ainda sobre a Autoeuropa

Belmiro de Azevedo critica os trabalhadores da Autoeuropa de não aceitarem a mobilidade e a flexibilidade laboral. Mente contudo Belmiro de Azevedo. Se há quem aceitou a aplicação desses princípios, em situações que assim o exigiram (e que no passado foram elogiadas e apresentadas como exemplos de cooperação e de encontro de soluções realistas), pensando não apenas nos seus próprios interesses, mas também nos da empresa, na importância da Autoeuropa na economia nacional (é responsável por 10% das exportações nacionais) e ainda no impacto no emprego e na economia local (estão em causas milhares de empregos e dezenas de empresas que fazem trabalho subsidiário para a Autoeuropa), foram os trabalhadores da Autoeuropa.

Ainda assim os trabalhadores, ao contrário do que diz Belmiro, não se recusam a trabalhar ao Sábado (em períodos de maiores picos de trabalho e para compensar os dias não trabalhados - a empresa propõem uma semana de 4 dias de trabalho com o 5º dia a entrar na bolsa de horas). O que não querem é que um trabalho ao Sábado, seja pago como um dia de trabalho normal. E mais ainda. Numa atitude de grande compreensão e responsabilidade aceitam a partilha deste trabalho extraordinário; recebendo apenas metade com o restante entrar na contabilidade da bolsa de horas.

Querer que os trabalhadores sejam os únicos a pagar as dificuldades é próprio de mentalidades retrógradas e de pessoas que não respeitam a dignidade dos trabalhadores. Querer que os trabalhadores aceitem tudo sem resistir é não perceber que apenas com a luta se consegue defender e conquistar direitos, cuidando de saber quando é necessário recuar.

Já sobre o ministro da Economia, Manuel Pinho, pouco haverá a acrescentar ao que tem sido dito pela generalidade dos comentadores: é talvez o ministro mais incompetente e um "vendido" aos interesses do patrões e da finança. Falar em falta de competividade, em produtividade, quando todos os indicadores indicam ser a Autoeuropa e os trabalhadores, dos maiores exemplos de competência, conhecimentos, produtividade é próprio de quem não sabe o que diz e que está de cócoras perante as multinacionais.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Autoeuropa: os trabalhadores e o emprego antes de tudo


As negociações na Autoeuropa estão hoje mais difíceis que no passado. A crise na indústria automóvel está à vista de todos. Vendem-se menos unidades. Haverá muitas razões que podem explicar isso, mas de todas, o abaixamento do poder de compra, muito sentido após a adesão à moeda única, explicam, em Portugal, a fatia maior na diminuição das vendas . Hoje a troca de carro é mais tardia e os jovens mostram grandes dificuldades em ter o seu primeiro carro (como a sua primeira casa, o primeiro emprego, etc. ).

No passado recente os acordos na Autoeuropa mereceram elogios e reparos: a) elogios pela actuação competentes dos dirigentes da CT nas negociações, sabendo conciliar firmeza na defesa dos direitos dos trabalhadores e elasticidade negocial na procura de soluções, assegurando sempre que a um recuo se seguiria um avanço em “dobro”, sempre que as condições económica-financeiras da empresa desse mostras de melhoria, como veio algumas vezes a acontecer. B) reparos, ou melhor dito ataque soezes dos que vêem o sindicalismo apenas como um instrumento de combate político-partidário e não como meio de defesa dos superiores interesses dos trabalhadores e dos seus direitos (como bem perceberam os trabalhadores que em plenários aprovaram sempre e por larguíssima maioria os acordos celebrados). Viu-se o que deram estas intransigências na OPEL da Azambuja: deslocalização da empresa e trabalhadores para o desemprego. Por fim, ainda, alguns empresários sem escrúpulos que deturpando o acordo apenas se referiam à flexibilidade negocial, escondendo as garantias e os direitos subsidiários conseguidos.

Não, por acaso, a Autoeuropa tem-se aguentado, não tem havido despedimentos, os trabalhadores continuam a ganhar acima da tabela, os trabalhadores não têm perdido direitos mas apenas trocado ou suspenso. Agora os dirigentes e os trabalhadores, na renegociação de um novo acordo, deparam-se com uma intransigência inesperada e forte da administração, parecendo difícil encontrar soluções de consenso, em que as partes possam ceder, sem colocar em causa a perda de empregos, a deslocalização da fábrica ou a perda de direitos de forma definitiva, isto apesar dos apoios do Estado concedidos à indústria automóvel.

A CT de trabalhadores enfrenta um novo teste. E qualquer que seja a decisão será, agora redobradamente, motivo de criticas. Um acordo com a empresa, nas condições pretendidas pela administração será entendido como uma cedência, uma capitulação. Uma atitude de total irredutibilidade, poderá colocar em causa alguns postos de trabalho, ou mesmo a deslocação da produção para a Alemanha e o despedimento colectivo. Em última análise é toda uma economia de uma região que está em causa. Dezenas de empresas que sobrevivem à custa da Autoeuropa, milhares de trabalhadores a correrem riscos de desemprego.

Há quem já esteja de dentes afiados. A célula do PCP está à espera de lançar o ataque seja qual seja a decisão e mesmo que esta tenha o apoio dos trabalhadores. Aos dirigentes, agora como no passado, exige-se inteligência, criatividade. Ser firme mas pesar todas as consequências, não arrastando os trabalhadores para becos sem saída, irremediáveis. Não queria estar na pele dos dirigentes da Comissão de Trabalhadores. Em última análise caberá aos trabalhadores decidirem. Não desistindo de lutar mas cuidando de não esticar a corda até rebentar.

Como já tive de dizer num anterior post: a crise veio mostrar como o capitalismo é ganancioso e selvagem. Em tempo de vacas gordas enchem-se à vontade e à larga não partilhando com os trabalhadores a criação da riqueza. Nas dificuldades os trabalhadores são tratados como cães vadios. Aos primeiros sinais, fazem verter sobre os trabalhadores a crise, despedem, fecham as empresas. Não aceitam a diminuição dos lucros. Uns tempos de prejuízos depois de anos e anos de intensos lucros. A diminuição dos tempos de trabalho, os lay-off’s, são ganhar tempo, para esconder o despedimento colectivo que vem logo a seguir. Os trabalhadores que sabem o que significa o drama do desemprego, não se esquivariam nunca a ceder temporariamente direitos, salários, se a crise existir de facto e perfeitamente demonstrada.

O problema é o capitalismo predador.

domingo, 3 de maio de 2009

SINTTAV- um sindicato-patrão que despede invocando o Código de Trabalho

Nota*: A fotografia que ilustrava este post foi retirada a pedido de um dirigente do SINTTAV. Abaixo pode ler o e-mail do dirigente. Esclareço que foto apresentada pretendeu apenas identificar o sindicato e não fazer qualquer associação dos dirigentes que apareciam na fotografia (foi coisa que nunca me passou pela cabeça e aliás na fotografia estavam muitos outros trabalhadores) com a decisão em apreço, como acredito que perceberam. No entanto não há como deixar tudo claro.

Tendo em vista a "necessidade de proceder à racionalização dos meios humanos com vista à redução de despesas" (...) sem a qual estaria em causa "a própria sobrevivência (...) e "num cenário de dificuldades económico-financeiras (...) informa-se a trabalhadora da "cessação do contrato de trabalho" (...) por "motivo de extinção do posto de trabalho" (...) nos "termos e para os efeitos do art.º 368 do Código de Trabalho".

Pois é! Quem assim procede é um sindicato a despedir uma trabalhadora de limpeza. Um sindicato (SINTTAV - Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e Audiovisual) que invoca o Código de Trabalho, o mesmo que diz combater, para despedir uma sua trabalhadora. E pasme-se, com o argumento da extinção do posto de trabalho (o único que podia invocar), um argumento falso já se vê; o trabalho de limpeza nunca acaba, mais a mais, quando é a única trabalhadora da limpeza.

A linguagem utilizada é tirada a papel químico da utilizada por qualquer patrão: necessidade de racionalização dos meios humanos, redução de despesas, dificuldades económicas e financeiras, sobrevivência da organização... Mas será mesmo assim?

Assim, à primeira vista, no orçamento para 2009, vejo logo onde podiam ser reduzidas as despesas, por exemplo:

a) nas despesas de representação dos dirigentes, delegados, activistas e sede e nas actividades das coordenadoras: previsto em orçamento - 110 500,00 € (é muito dinheiro! para tão pouco trabalho), através de uma reestruturação do sindicato, adequando as coordenadoras à estrutura das empresas que cobre: ficariam reduzidas a metade, no máximo 6 contra as 12 existentes; Norte, Centro, Sul, Lisboa, Açores e Madeira (e se calhar já são demais face ao trabalho que desenvolvem, digo eu).

b) nas deslocações de dirigentes ao estrangeiro: previsto em orçamento - 10 000 € (uma inutilidade! apenas tem servido para dar uns passeios a Cuba, Bulgária, Luxemburgo e outros países, penso eu.)

c) na produção de publicidade e propaganda: agendas, calendários, posteres, postais e outros: previsto em orçamento - 11 000,00 € (um exagero! essas coisas não servem rigorosamente para nada)

d) nos custos com as filiações sindicais, na CGTP, UNI, Uniões Sindicais: previsto em orçamento - 29 000,00 € (um enormidade! 18 mil para CGTP, 6, 3 mil para as Uniões Sindicais (ou seja para a mesma organização) e para a UNI 4,5 mil para justificar as passeatas. Exigir pagar menos ou desfiliação.

E outras haveria com certeza a considerar, como seja a renegociação da consolidação da dívida. Só em juros suportados/empréstimos bancários o Sindicato tem previstos gastar 36 000,00 € quando dispõem de um património imobiliário (à venda) de centenas de milhares de euros, creio bem.

Depois disto que moral, que crédito, tem o sindicato para contestar qualquer processo de despedimento?

Não está em causa, como disse, a necessidade de controlar as contas, reduzir as despesas, face à diminuição das cotizações sindicais. Não estaria em causa sequer invocar um despedimento, vários despedimentos até, se a situação económica-financeira do sindicato, não permitisse manter os postos de trabalho e sem isso, pusesse em causa a existência do próprio sindicato, o que iria dar ao mesmo! O que está em causa é usar argumentos falsos! É usar os instrumentos e os argumentos (falsos) dos outros para despedir os seus quando critica e combate, quando usado pelos outros.

Assim, não! Isto não é sindicalismo sério. Pela reintegração da Senhora de limpeza!

*e-mail do dirigente

Boa tarde camarada,

Sou um dos dirigentes do SINTTAV, contudo não concordo nem fui consultado quando foi tomada a decisão de enviar uma carta de despedimento à trabalhadora, cujo caso publicas no BLOG.

Fui conhecedor da situação quando tive acesso ao ofício enviado pelo Presidente e posteriormente através da notícia do Público. A minha posição, tal como de outros dirigentes que desconheciam os contornes deste processo, está tomada e será transmitida dentro dos orgãos do sindicato.

Assim sendo, agradeço que seja retirada o mais rapidamente possível a foto com que ilustras a notícia, visto que eu estou nessa foto. Aliás nenhum dos envolvidos no processo está na foto, apenas dirigentes e trabalhadores que nada tiveram a ver com esta situação de despedimento.

Sem mais de momento,

(Rui Beles Vieira)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O 1º de Maio. "Lutas velhas canto novo..."

O 25 de Abril é festa, alegria, celebração. O 1º de Maio é luta, protesto, reivindicação. No 25 de Abril cabem todos ("cravo vermelho ao peito/ a muitos fica bem/ sobretudo faz jeito/ a certos filhos da mãe") os democratas. O 1º de Maio é sobretudo dos trabalhadores. No 25 de Abril não fica bem contestar contendores políticos (aconteceu com dirigentes do PS). O 25 de Abril é sobretudo liberdade e democracia. Mas no 1º de Maio fica muito bem. Assobiar, insultar, combater politicamente: o governo, os patrões, os partidos, todos quantos escolhem ficar do lado dos poderosos, contra os direitos e as reivindicações legitimas dos trabalhadores e do povo mais sofrido. "Ontem" celebrou-se Abril. Amanhã comemora-se o dia em que os trabalhadores, em 1886, em Chicago, encheram as ruas pela primeira vez (alguns dos quais foram mortos por esta causa) a reivindicar a redução da jornada de trabalho para as 8 horas diárias. Em Portugal (na maior parte das cidades, pelo menos -e de há muitos anos)os sindicatos cumprem um ritual. Um ritual que vale tanto ou menos que outros rituais: um dia feriado apenas. E venham os ranchos folclóricos, as provas desportivas e o comício do costume. Comigo não contam. O meu 1º de Maio este ano vai ser passado a ouvir Pedro Barroso, mais depois à noitinha, em Ponte de Lima, no Teatro Diogo Bernardes, sem ter nada a ver com as comemorações. Provavelmente, apesar deste espectáculo se integrar nos seus 40 anos de carreira, não vou ouvir "lutas velhas/ canto novo/ que a resistência do Povo/ também se faz a cantar/" mas que é verdade é, ainda hoje. Que o diga José Mário Branco, principalmente.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Greves xenófobas. E como sindicatos de classe e corporativistas podem ser reaccionários

A greve de trabalhadores ingleses contra a contratação de trabalhadores estrangeiros, é uma manifestação de xenofobia, retrógrada e desonrosa para os trabalhadores e para sindicatos ingleses envolvidos, qualquer que seja a razão aparente ou verdadeira. Estas greves são um grande retrocesso na cultura política, na percepção dos direitos, nas conquistas civilizacionais. A ninguém pode ser negado o direito de procurar o seu lugar, o seu modo de vida, a sua felicidade, onde e como quiser, sem constrangimentos, acondicionamentos, em qualquer parte do mundo, respeitando iguais direitos dos outros, no mesmo plano de igualdade, não se sujeitando a destinos delineados por outros.

O direito ao trabalho, como outros direitos, não tem nacionalidade. Os trabalhadores ingleses estão a ver mal o problema. A incerteza do emprego, a insegurança profissional e social, um quotidiano intenso e stressante, um presente e um futuro incerto, são motivos suficientes para demonstrar a nossa indignação e protesto. Mas o alvo não pode ser os iguais a nós ou pior do que nós. Os que sofrem os mesmos dramas. Horrorosos, dolorosos, terroristas.

O que eu compreenderia é que os trabalhadores exigem-se para esses seus colegas contratados, condições de salário justas, condições de trabalho dignas, cargas de trabalho adequadas, horários de trabalho consentâneos. Em defesa dos direitos universais dos trabalhadores, em solidariedade com os outros trabalhadores e para impedir concorrências desleais e desiguais.

O direito ao pleno emprego deve ser parte integrante de uma luta diária, permanente, insistente, exigente, contra este modelos das sociedades capitalistas, cuja marca principal, a impressão digital, são as injustiças sociais, a desigualdade de oportunidades, as grandes diferenças económicas e sociais.

Estas manifestações e protestos são muito perigosos no actual contexto de crise económica. Consciente ou inconscientemente, prestam um serviço ao reaccionarismo primário, são um retrocesso político e social, favorece o surgimento das forças do passado, racista, fascista e xenófobo. A participação dos Sindicatos nestas movimentações, a liderar ou a reboque dos acontecimentos, dizem-nos muito do tipo corporativista do sindicalismo, dito de classe, mas não de luta de classes.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Um novo sindicalismo para os novos tempos

Um artigo de António Chora, coordenador da Comissão de Trabalhadores de Trabalhadores da Auto-Europa, propõe uma nova abordagem sindical em tempos de crise económica e num mundo em permanente transformação. Podendo algumas das ideias ser consideradas, como cedências, são em minha opinião, adequadas quando mudaram, as profissões, os processos de trabalho, os modos de produção, mudaram as indústrias e os negócios, enfim.

Hoje o trabalho está marcado pela precariedade, ameaças de despedimento, o trabalho desregulado, cargas de trabalho intensas, pressão dos resultados, muito associados à polivalência, à flexibilidade, à mobilidade geográfica, a relações de trabalho descompensadas. E se isto já era assim, com uma crise económica a afectar de forma significativa muitas empresas, com dificuldades em colocar no mercado a sua produção ou serviços, os trabalhadores são confrontados com novos e mais delicados problemas, o pior dos quais o espectro do encerramento das empresas e consequentes despedimentos.

Neste novo contexto, exige-se aos sindicalistas, formas de intervenção inteligentes e responsáveis, encarando de frente os novos tempos e as novas exigências profissionais, sem que isso signifique o abdicar dos alicerces dos direitos laborais e muito menos perda de dignidade pessoal e profissional, mas que possa conciliar interesses diferentes, em situações que tem de mesmo de ser, para que o desejado melhor, não venha a tornar-se o pior dos males. Os muitos falados e vilipendiados, especialmente pelo PCP, acordos colectivos na Auto-Europa, são bons exemplos em como, com mestria e inteligência, é possível fazer bons acordos, preservar direitos e negociar contrapartidas futuras, em ambientes económicos difíceis e complexos. O contraste com o sucedido na OPEL da Azambuja é elucidativo: de um lado um sindicalismo focado unicamente nos verdadeiros interesses dos trabalhadores, tem obtido resultados, no outro marcado por agendas e calendários partidários, com formas de luta desajustadas, extemporâneas e inconsequentes, deitaram tudo a perder.

Aproveitando o ensejo deixo-vos uma reflexão minha de sensivelmente há dois anos.

A actividade sindical quase não existe, em Portugal. Uns poucos, muito poucos, trabalhadores, de vez em quando, participam em algumas reuniões, nas cada vez menos reuniões, que os sindicatos promovem. Ainda assim, os que participam, na sua maioria, só lá vão, quando se sentem ameaçados nos seus direitos mais fundamentais. Eu percebo-os. Assoma sobre eles o medo. O medo das represálias, o medo da pressão, o medo de conotação, o medo de não renovarem o contrato, o medo de perder o emprego.

Predomina, igualmente, a ideia de que estas reuniões não adiantam nada, os discursos são palavreado repetido e de circunstância, reiteradamente ouvidos, sem consequências práticas, cantando vitórias inexistentes ou esboçando perigos iminentes, para por fim, fazerem uma declaração de guerra e serem convocados para jogos políticos de encomenda. É assim, tem sido assim. Os sindicatos não vão aos locais de trabalho, não conversam com os trabalhadores, não os percebem, não os ouvem, não entendem os seus problemas e receios. Aparecem para distribuir uns comunicados, muito radicais na linguagem, mas nada eficazes, na explicação dos problemas, na dinamização activa.

É preciso o esclarecimento personalizado, pequenas reuniões, conversa a sós ou em grupo, no local de trabalho, nas pausas, nos gabinetes, nas oficinas, nos grandes espaços físicos, é preciso ir para a rua, fazer comunicados à população, colocar tarjas, recorrer à imprensa, sensibilizar as pessoas para as suas causas. É preciso acabar com as greves, nas vésperas de feriados, nas pontes, no dia dos exames. Hoje ao contrário doutros tempos é preciso estar atento às pessoas, conquistá-las, e não prejudicando-as deliberada e quase ostensivamente, porque até dá um certo jeito pessoal. Não! Isso é ganhar inimigos, é dar argumentos aos populistas. É dar-lhes a oportunidade de denegrir uma luta.

A decisão da luta tem de ser discutida, consensualizada, abrangente. Fazer greve, encontrar novas formas de protesto, mobilizar os jovens e as populações, fazendo convergir descontentamentos, são caminhos a serem encetados. A maioria dos sindicalistas ou estão nos gabinetes sindicais ou nas sedes “ a tempo inteiro”, em viagens ao estrangeiro ou de vez em quando a organizarem uma acção de acordo com a agenda política do partido ou da central sindical a que estão afectos. Por isso certas acções de luta ou algumas comemorações como o primeiro de Maio, não passam de rituais. A maioria dos sindicalistas, dirigentes sindicais, dirigentes das estruturas intermédias, as uniões sindicais, ou dirigentes nacionais, estão desacreditados, institucionalizados, rendidos, acomodados, alguns estarão mesmos “vendidos”. Hoje na sua maioria são uns burocratas para ocasiões festivas, para cumprir papéis partidários. Uma vez ou outra fazem uma ou outra acção conjuntural para mostrarem que existem. E lá estão sempre os mesmos: Os dirigentes de sempre, os delegados sindicais de sempre, os funcionários do partido de sempre, e os trabalhadores, carne para canhão de sempre. E os ingénuos de sempre. É esta a mobilização que conseguem. Os mesmos de sempre. E há outros que não querem ficar de fora e conscientemente alinham em algumas destas iniciativas, para não desbaratarem um capital de unidade e luta.

Alguma coisa tem de ser feita. Assim é uma tristeza. Um dia destes, a continuara assim, nem com os trabalhadores de sempre, nem com os que alinham sempre, para não criar divisões, se pode contar. Ficam só os burocratas sindicais ou os burocratas do partido. A verdade é que a maioria de nós, sindicalistas e activistas, também, pouco fazemos para mudar. Sabemos que não é fácil, a máquina está “fechada” para nela ninguém entrar. Mas vai faltando participação, exigência, esforço para mudar, falta determinação para o combate.

E quem quer ser sindicalista hoje? Quem é activista sindical? Quem quer ser dirigente sindical? E quem estando interessado, conseguirá entrar num universo que está interdito a outras vozes e pensamentos? O cerco da máquina partidária ou sindical abafa tudo. É uma tristeza e lamentável.

Hoje a carreira profissional está primeiro. O egoísmo está primeiro, O individualismo está primeiro. Mas tudo poderia ser diferente se o processo de renovação se desse pacifica e livremente, sem interferência politica e partidárias, sem querer controlar a máquina, escolhendo os mais preparados, os mais disponíveis em cada momento e por períodos curtos. Os trabalhadores só tinham a ganhar!


Termino com António Chora: “…infelizmente, milhares de pequenas e médias empresas irão fechar, dezenas de milhares de trabalhadores irão conhecer o desemprego, provavelmente muitas empresas irão encetar processos de fusão, surgirão novas e mais sofisticadas tecnologias, uma outra globalização deve nascer, novas organizações do trabalho e profissões nascerão, e se os Sindicatos não se adaptarem, não se democratizarem, permitindo a participação de todos os trabalhadores, promovendo eleições proporcionais tais como nas Comissões de Trabalhadores, e se não optarem por defender verdadeiramente os Trabalhadores que representam, em prejuízo de falsas opções de classe e ligações partidárias, correm sérios riscos de desaparecerem por falta de credibilidade, logo de sindicalizados. Alguns anti-sindicalistas esfregarão as mãos da alegria se tal acontecer, neste momento já riem do sufoco económico a que os Sindicatos se deixaram chegar, é no entanto uma obrigação de todos os que defendem um sindicalismo ao serviço dos trabalhadores, lutar para que tal não aconteça, lutar para que das cinzas desta crise nasça um sindicalismo sem amarras, um sindicalismo aos serviço de todos os Trabalhadores, um sindicalismo mais de acção do que de reacção".

domingo, 9 de novembro de 2008

Por uma escola para todos e focada no sucesso escolar

Aqui sobre a luta dos professores, escrevi: “ O que me interessa é a defesa da escola pública e não me parece que seja isso que está em causa ou que seja por isso que os professores lutam. Uma escola pública de sucesso requer professores motivados, competentes e bons profissionais. Requer boas instalações, bons programas, uma estabilidade pessoal e profissional. Requer uma escola popular e integradora, equipamentos adequados, professores dedicados e a tempo inteiro, requer uma gestão democrática e aberta, mas também requer o controlo e uma avaliação democrática do exercício e dos resultados da escola, dos gestores, dos professores, dos alunos, do pessoal auxiliar, em que todos são avaliados...”

Depois da manifestação de 100 mil professores ainda mantinha algumas reservas, sobre as verdadeiras motivações dos professores. Agora e depois de mais uma grandiosa manifestação de mais de 120 mil professores, já não tenho nenhumas dúvidas: os professores, na sua grande maioria, estão realmente disponíveis para defender uma escola pública de qualidade, inclusiva, responsável e competente. E isso passa, necessariamente, pela avaliação da escola e dos professores e pela resposta à seguinte questão: o que podem fazer todos para que o sucesso escolar aconteça”.

Só mesmo a ministra e o Primeiro-ministro é que parecem, teimosa e arrogantemente, não quererem ver o que está em causa: a reforma do ensino não pode ser feita contra os professores ou dispensar o seu contributo. Como também já o disse aqui: “querer responsabilizar os professores pelo estado actual de ensino é desonesto. Os professores não podem conviver com as culpas todas. Aos professores não podem ser assacadas culpas que são de todos: da sociedade, do sistema, dos pais, dos alunos e principalmente dos responsáveis pela governação em Portugal. Se um aluno reprova, se um aluno não vai à escola, se a escola não dá saídas profissionais, se os responsáveis não investem a sério na educação, a culpa não é dos professores. A ministra teve esse condão: de fazer crer, instalando a dúvida nos próprios que a culpa é deles e só deles. Os professores têm razões para demonstrar na rua a sua insatisfação e raiva pela ministra”.

Pela suspensão do sistema de avaliação! Por uma escola pública, inclusiva e de sucesso.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Defender as liberdades (a propósito dos insultos a Miguel Sousa Tavares).

As imagens de alguém a ser insultado e a precisar de protecção policial, por exercer os seus direitos cívicos consagrados na Constituição – a liberdade de discordar e de lutar pelas suas ideias, apresentam-se aos meus olhos, como intoleráveis e reproduções do pior de um tempo, no período revolucionário, que alguma esquerda, deveria ter sabido ultrapassar e que não são justificáveis, numa democracia madura.

As opiniões e as acções dos outros, podem ferir as nossas convicções e mesmo prejudicar os nossos interesses particulares, mas o contrário, também se aplica. Se o direito de cada um a defender os seus interesses, por mesquinhos ou corporativistas que possam parecer, a um ou a outros, é um direito irrenunciável e justificável, já o insulto, a violência física, a intimidação, como forma de vencer o adversário, é inaceitável, se o outro se bate no terreno da luta democrática e do exercício dos seus direitos, liberdades e garantias, conquistadas com o 25 de Abril.

Não me importa nesta nota saber quem tem razão na questão que está subjacente: se o movimento encabeçado por Miguel Sousa Tavares que se insurge contra o alargamento da área dos contentores e contra a permanência de uma infra-estrutura que cobre uma extensão de mais de 1,5 quilómetros, com um muro de contentores com uma altura de 12 a 15 metros que corta a ligação da cidade ao rio e impede uma requalificação do espaço e mais zonas de lazer, como vem sendo reclamado; se os trabalhadores que se julgam ameaçados com a perda do seu posto de trabalho se esta zona fosse requalificada. Não é isso que me importa nesta nota, como disse. Essa é outra discussão. O que me importa destacar aqui e agora, é um sindicato e duas centenas de trabalhadores, não olharem a meios para atingirem os seus fins: ofendendo, insultando, ameaçando a integridade física de quem sobre o assunto tem uma outra visão.

O que me entristece nisto tudo e não posso dizer que seja um exclusivo destes trabalhadores e deste sindicato, é que a defesa dos interesses corporativos (legítimos), possam desculpabilizar manigâncias, atropelos à lei, favorecimentos ilícitos, porque também os beneficiam. É nestas coisas que surgem as minhas principais discordâncias com os sindicatos, os movimentos, os partidos de esquerda e dos trabalhadores: nem sempre as lutas dos trabalhadores ou os trabalhadores individualmente gozam da presunção da razão. A credibilidade das organizações constrói-se muito com o exercício da pedagogia.

E como não tive oportunidade de escrever sobre o assunto, aproveito esta oportunidade para lavrar mais um nojo à colecção, sobre este Governo: precisamente o de alargar a concessão de exploração dos terminais do porto de Lisboa à Liscont/Mota-Engil, do ex-ministro socialista Jorge Coelho, sem mais, sem concurso público, sem respeito pelos concorrentes, sem cumprir os prazos máximos de concessão previstos na lei, sem cuidar de saber dos interesses dos lisboetas. Uma vergonha a juntar a tantas outras.
 

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