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domingo, 21 de março de 2010

No dia mundial da poesia saudar um amigo

perco o olhar noutras palavras     puras     e ofereço-me à
sabedoria das aves     sou esse vagabundo que apanha as
palavras despidas de êxito e vai depositá-las nos convés
da espera
nem outra margem me segura os passos     vou por este
lado do engenho onde o sonho inspira as aves para a
construção dos ninhos
assim se cumpre o signo dos meus dias     ir até ao fim da
estrada com as palavras coladas aos dedos

Passos de Anisa 29
Álvaro de Oliveira - Baladas de Orvalho*

* Baladas de Orvalho que Álvaro de Oliveira me deu a honra de apresentar em Viana.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Oportunismos que não tolero, mais a mais, vindos de quem se diz de esquerda. Há pequenas coisas que definem as pessoas.

A propósito das presidenciais, duas certezas: não voto, não votarei nunca em quem, por actos ou omissões, seja uma pessoa de direita. De direita mesmo, e não porque se afirma de direita. Como não votarei numa pessoa porque se afirma de esquerda. Direita e esquerda continuam a contar ... na vida pessoal, como agimos no dia a dia, na forma como cada parte olha o mundo, tratam as desigualdades e as injustiças sociais ... ou como as querem resolver. Não voto, por isso em Cavaco Silva como não voto em Manuel Alegre. No primeiro por razões óbvias quem conhece o meu mundo. Em Alegre, podia escolher muitas razões, mas escolho esta, que é uma razão de ordem da ética pessoal: não confio numa pessoa que recorre a uma manobra manhosa e indigna para receber uma avultada reforma. Uma reforma correspondente ao cargo de coordenador da RDP, cargo que suspendeu em 1975 com a eleição para deputado, continuando contudo a descontar para efeitos de reforma, durante mais de 30 anos, concomitantemente com o exercício de deputado e no mesmo período, razão pela qual teve direito a uma reforma vitalícia de 3 219,95 euros que acumula com a reforma de deputado. Uma vergonha! Não, este homem não me convence, decididamente.


Mas esta introdução serve apenas de pretexto (ou o contrário) para lançar este extraordinário poema de António Gedeão. Também eu preciso de certezas ... ou sentir que tenho razão às vezes  ... mesmo quando não a tenho. Um desabafo, enfim.

Certezas, precisam-se

Preciso urgentemente de adquirir meia dúzia de valores absolutos,
inexpugnáveis e impenetráveis,
firmes e surdos como rochedos.

Preciso urgentemente de adquirir certezas,certezas inabaláveis, imensas certezas, montes de certezas,
certezas a propósito de tudo e de nada,
afirmadas com autoridade, em voz alta para que todos oiçam,com desassombro, com ênfase, com dignidade,
acompanhadas de perfurantes censuras no olhar carregado, oblíquo.

Preciso urgentemente de ter razão,
de ter imensas razões, montes de razões,
de eu próprio me instituir em razão.
Ser razão!
Dar um soco furibundo e convicto no tampo da mesa e espadanar razões nas ventas da assistência.

Preciso urgentemente de ter convicções profundas,
argumentos decisivos,
ideias feitas à altura das circunstâncias.

Preciso de correr convictamente ao encontro de qualquer coisa,de gritar, de berrar, de ter apoplexias sagradas em defesa dessa coisa.
Preciso de considerar imbecis todos os que tiverem opiniões diferentes
da minha,
de os mandar, sem rebuço, para o diabo que os carregue,
de os prejudicar, sem remorsos, de todas as maneiras possíveis,
de lhes tapar a boca,
de lhes cortar as frases no meio,
de lhes virar as costas ostensivamente.

Preciso de ter amigos da mesma cor, caras unhacas,
que me dêem palmadinhas nas costas,
que me chamem pá e me façam brindes em almoços de camaradagem.

Preciso de me acocorar à volta da mesa do café, e resolver os problemas sociais entre ruidosos alívios de expectoração.

Preciso de encher o peito e cantar loas,
e enrouquecer a dar vivas,
de atirar o chapéu ao ar,
de saber de cor as frequências dos emissores.
O que tudo são símbolos e sinais de certezas.
Certezas!
Imensas certezas! Montes de certezas!
Pirinéus, Urais, Himalaias de certezas!

António Gedeão - Certezas, precisam-se

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Semelhança

Num gesto de enfado,
deito fora o cigarro meio fumado.
No chão se irá queimando
até que se consuma...

Nós somos, também, cigarro fumegando
-a Vida é que nos fuma!...

Alfredo Reguengo, 14 de Agosto de 1963

domingo, 17 de janeiro de 2010

Presença



(...)
Vou pela longa estrada pedregosa
ao teu encontro
(que eu não sei esperar
parado...)
e, à minha frente
vão
os meus olhos
ávidos
e ansiosos
a desvendarem as curvas dos caminhos
por onde tu hás-de chegar um dia
ao meu encontro
- se chegares a chegar...

Alfredo Reguengo

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Viagem



(...)

Mas o que ninguém consegue
é tirar
a tua imagem
dos meus olhos
deslumbrados!

Eu tenho-a,
viva,
lá dentro
e, para que ela não fuja,
hei-de levá-los... fechados!...

Alfredo Reguengo

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Mar da Boca



ardem as palavras
             (silenciosas)
no mar da boca

sempre num movimento
secreto dos gestos.

só o rosto
se eleva à nítida expressão
da fome

até que o suor
repouse suavemente
             no interior do grito

(Álvaro de Oliveira - Mar da Boca (1985)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Queria ...



Queria tanta coisa
Que as palavras já
não transmitem.
Os gestos já vacilam,
porque não suportam
Tanto querer.

O sorriso já não ri,
porque o rosto está cansado.
As mãos quase não agarram,
porque quase tudo vai fugindo.
Os olhos esses ...
ainda brilham,
porque o coração não
deixou de amar.

(de Adelaide Graça - Limites da Razão (1998)

(Minha querida amiga Lay um beijinho para ti. Não te deixes abater ... pensa em ti, amiga. Sê um pouco egoísta.)

Aproveito para desejar a todos as amigas e amigos, leitores habituais e visitantes ocasionais do in coerências, um ano de 2010 do melhor.

(imagem de Terry Morgan, um heterónimo de Tiago Manuel; uma ilustração do livro Lua Negra.)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Um Bom Natal

(...)

Hoje,
peguei nas minhas dores
e lancei-as para o meio de ti,
para que, ao procurá-las,
eu tenha
que encontrar as tuas Dores
e já não saiba
quais são as tuas e as minhas!...

Alfredo Reguengo (poeta, comunista e resistente anti-fascista vianense)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Alarme

Quem foi que anoiteceu a tarde em água e vento
e encheu de Inverno o Outono em que me escondo?
Quem foi que amarfanhou o meu sorriso antigo
e encheu de lama estrelas que sonhava?

Vontade de escarrar,
vontade louca
de dizer palavrões
a toda a gente!...
E tudo fica igual,
como se nada
tivesse acontecido
em qualquer parte;
e tudo fica mudo,
a mastigar
pra dentro
os palavrões
que era
preciso
dizer,
para que a tarde
fosse tarde
e o Outono
Outono
e o riso fosse riso
-um bimbalhar de sinos-
e as estrelas
brilhassem como sóis...

É preciso
acordar
a madrugada
-antes que a matem,
inda mal desperta!...

Alfredo Reguengo
05/12/1969
(Poemas da Resistência)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Apaga a luz!

Eu não tenho jeito nenhum para a poesia. Também não conheço as regras, a métrica, contar e combinar as sílabas, os sons, a rima. Mesmo assim e a pedido, escrevi um poema que a minha querida amiga Helena me fez lembrar aqui há uns dias. Depois fiz mais uns outros. Pedindo perdão pela falta de jeito, nesta quadra, apetece-me lembrar e pegar num desses poemas, escrito, precisamente em Dezembro de 2005. Foi o meu segundo. E poucos mais se seguiram, estejam descansados.

Apaga a Luz

Vem!
Vamos.
Eu quero ir.
Anda.
Vem mesmo assim!
Deixa tudo.
É só uns tempos.
Tu precisas de ir!
Eu quero ir.

Vamos os dois!

Anda conhecer o mundo.
O mundo do outro lado!
Vá!
Anda.
Ao outro lado
Comigo!
Vem!
Vem ver como é
O outro lado!

Não faças de conta
Que não é contigo!
É contigo
é comigo
É com todos!
Vem!
Vem mesmo assim
Eles não são de cerimónias.
Retira só o casaco
Da indiferença.
Vem ver o lado dos que sofrem!
Viste? Pronto!

Agora, deixa-me só!
Deixa-me comigo.
Deixa-me esquecer que existo.
Deixa-me esquecer que estou vivo.
Deixa-me com a minha vergonha!
Isto passa…
Amanhã é outro dia.
Amanhã…
Já estamos do lado de lá.
Podes começar a vestir o casaco
Amanhã é tudo igual.
Tu não viste.
Eu não ouvi.
Nós não vimos nada de mal
Nós vamos continuar a fingir
Nós vamos continuar a mentir!

Cambada de cobardes!
Puta que nos pariu!

Apaga a luz
E deixa-me só!
Já te disse.
Foda-se!
Eu quero ficar só
Ouviste!
Apaga essa merda
Caralho!
 

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